quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma perspectiva crítica da cidade modernista


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As cidades do século XIX passavam por problemas de saúde e salubridade. As ruas abrigavam pessoas, carruagens e cavalos. A partir de meados do século XIX a cidade de Paris passa pela reforma de Haussmann que sobre a ótica positivista trouxe o saneamento em larga escala para a cidade. Além disso, Paris passou a ter largos boulevares que tinham a função de controlar as revoltas e manifestações que ocorriam na cidade.
Quase um século depois, em 1933 surge a carta de Atenas que inaugura o movimento modernista. Daí surge o urbanismo modernista que a dá prosseguimento ao positivismo e remodela a cidade visando o bem estar do ser humano, mais especificamente no sentido da iluminação natural e na ventilação. Nesse ponto o urbanismo modernista tinha como foco o homem.
O urbanismo modernista trata a cidade como um meio que precise de ordem e para que isso ocorra, se define 4 funções básicas para a cidade : Morar, trabalhar, cultivar o espírito e circular. A cidade é definida em áreas monofuncionais, em que a circulação interliga as outras três funções. Circulação esta regida por automóveis, tempos modernos exigiam velocidade e eficiência.
No entanto o modernismo teve que lidar com a cidade construída, existente. Portanto para que a cidade modernista surgisse, era preciso apagar o passado e surgir com o novo. O urbanismo modernista, juntamente com a arquitetura apagou uma parte do passado; a segunda guerra mundial apagou outra. No entanto parte de um passado permaneceu, o urbanismo modernista não conseguiu apagar o velho e deve que conviver num espaço de diferentes tempos.
A cidade de Brasília é uma exceção já que foi uma cidade totalmente projetada a partir do “nada” em termos de ocupação anterior a construção da cidade, sendo assim a reprodução mais fiel do urbanismo modernista no mundo. Brasília recria as super quadras, com padrões de ocupação definidos e o uso da terra como uso coletivo e, portanto de todos. Além disso, no plano da cidade havia uma mistura de classes sociais morando nas superquadras trazendo uma diversidade social imprescindível para o bem estar público.
No entanto a separação das funções criou duas Brasílias: uma na escala monumental para o automóvel e outra da escala agradável nas super quadras. Mas fazendo isso a cidade perdeu sua vida urbana já que vida na cidade ocorre nos espaços entre os edifícios e nos espaços vazios e de funções misturadas na cidade. Projetaram-se espaços generalistas demais, onde pode ocorre tudo e o nada. O nada prevaleceu. A cidade não foi feita para as pessoas, mas sim e exclusivamente para o automóvel. Tudo isso em nome de um padrão de homem idealizado, algo que nunca ocorreu.
E por fim o planejamento rígido da cidade, ao invés de estimular a diversidade social, a excluiu e assim nascem as cidades satélites que crescem desordenadamente em volta da capital. Essas foram as consequências que geraram a derrota de um modelo urbanístico que fracassou e nos custa caro reproduzi-lo até hoje.
 *foto: iwan baan iwan.com

quinta-feira, 12 de março de 2015

Coordenação Modular

Na coordenação modular, o termo módulo significa precisamente "medida de 10cm". Mas na linguagem em geral e também coloquialmente entre arquitetos e engenheiros, esse termo tem outros significados sedimentados pela história e pelo uso. Aqui trata-se de desfazer esses mal-entendidos no que diz respeito à coordenação modular.


O que importa na coordenação modular é a repetição de uma medida, não a repetição de um elemento. Os objetos abaixo não são modulares no sentido da coordenação modular.



Moradia estudantil da Faculdade de Medicina da Universidade de Louvain (Bélgica), projetada por Lucien Kroll em 1970. O edifício é coordenado modularmente, o que favorece a diversidade e a flexibilidade das divisões internas e dos fechamentos externos.


Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil), projetada por equipe da UFMG em 2000. O edifício não é coordenado modularmente, embora haja repetição de elementos construtivos e racionalização dimensional.

Na coordenação modular, o termo módulo significa precisamente "medida de 10cm". Mas na linguagem em geral e também coloquialmente entre arquitetos e engenheiros, esse termo tem outros significados sedimentados pela história e pelo uso. Aqui trata-se de desfazer esses mal-entendidos no que diz respeito à coordenação modular.

O que importa na coordenação modular é a repetição de uma medida, não a repetição de um elemento. Os objetos abaixo não são modulares no sentido da coordenação modular.




O equívoco mais comum é a idéia de que coordenação modular seria o mesmo que a repetição de determinado elemento construtivo. Diz-se que uma edificação é "modular" quando a repetição de elementos materiais ou espaciais (em geral relativamente grandes) é evidente e determina o projeto. Por extensão, muitos profissionais entendem a expressão coordenação modular como "composição de elementos iguais", "racionalização de componentes predefinidos", "projeto com partes pré-fabricadas" etc. Ora, uma construção pode ter repetição de elementos sem ser coordenada modularmente (como é comum na construção civil brasileira) e, inversamente, pode ser coordenada modularmente sem ter elementos construtivos repetidos. De fato, a coordenação modular torna possível unir elementos muito variados, sem perdas e retrabalho. Na realidade, a coordenação modular é fundamentada na repetição de uma pequena medida (o módulo de 10cm), não na repetição de um objeto ou espaço.

Na coordenação modular, o módulo tem 10cm, não uma medida ordenadora qualquer.



Outro significado corriqueiro do termo módulo é o de "medida geratriz de um projeto". Esse significado comparece nos tratados clássicos de desenho e composição, e é revisitads por Le Corbusier com seu Modulor. Também quando se diz que o tijolo foi utilizado como módulo da construção, é esse o significado aludido. Porém, na coordenação modular, o módulo básico é de 10cm. Equacionar cuidadosamente a combinação de elementos numa medida qualquer não é coordenação modular.

A coordenação modular, pode ser usada em qualquer construção, não é o mesmo que pré-fabricação, nem é exclusiva dos pré-fabricados.
Na língua inglesa, modular building e, especialmente, modular housing, modular home e termos similares significam "pré-fabricação". A coordenação modular de fato foi criada com o intuito de compatibilizar elementos industrializados entre si e com outros elementos, produzidos no canteiro. Mas ela não é, de modo nenhum, exclusivamente aplicada a processos industriais, nem implica sistemas construtivos fechados ou dependência de um único fabricante. Na verdade, a coordenação modular facilita unir pré-fabricação e técnicas construtivas tradicionais, assim como facilita unir elementos de fabricantes diversos.


http://www.mom.arq.ufmg.br/mom/index.html

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Distrito Federal redivido em sete macro regiões


mapa do df



Por Chico Sant’Anna
O Distrito Federal tem um novo mapa geopolítico. Decreto do governador Rodrigo Rollemberg, de 2/1, nomeou sete super administradores regionais para dirigir as 31 regiões administrativas até então existentes.





https://chicosantanna.wordpress.com/2015/01/05/rr-redivide-o-distrito-federal-em-sete-macro-regioes/

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

PPCUB e LUOS retirados da CLDF


Rollemberg cumprimenta secretarios de Estado antes de discursar na primeira sessao ordinaria da Câmara Legislativa (Foto: Mateus Rodrigues/G1)


Enfim, após uma luta de quase quatro anos, a sociedade de Brasília foi ouvida e no último dia 5 de fevereiro de 2015, quinta-feira, foi pedida à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) a retirada dos projetos de Lei do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB) e da Lei de Uso e Ocupação do Solo do DF (LUOS) .
O grupo Urbanistas por Brasília continuará monitorando os temas e espera que a gestão do solo do DF e da área tombada continue norteada pelo bom senso da nova gestão local e ocorra de forma técnica, democrática, transparente e responsável, em consonância com a importância de nossa cidade.
O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, enviou à Câmara Legislativa um pedido para que sejam retirados todos os projetos de lei enviados pelo Executivo na gestão de Agnelo Queiroz. O texto foi lido nesta quinta (5) em plenário pela presidente da Casa, Celina Leão, e a ação deve ser cumprida nos próximos dias.
Segundo a consultoria legislativa da Câmara, o rito é comum entre os governadores que assumem o primeiro mandato. A ideia é evitar que os parlamentares resgatem alguma proposta da gestão anterior que não conte com o respaldo da nova equipe. Os projetos enviados pelo Buriti são assinados como “Poder Executivo” e não com o nome do governador em exercício.
No pacote de projetos retirados estão temas polêmicos como a Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos) e o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCub). Os temas serão reavaliados pelo Buriti e devem retornar à Câmara nos próximos meses, em novos projetos de lei. Após a retirada, os textos continuam disponíveis no sistema da Câmara Legislativa, mas não podem voltar à tramitação.
‘Resgate’
Com o começo da nova legislatura na última terça (3), parte dos projetos de lei encaminhados pelos próprios deputados até o ano passado fica com o andamento paralisado. O regimento interno da Câmara estabelece prazo de 60 dias para que os parlamentares solicitem o “resgate” das proposições.
A regra não se aplica a textos com parecer favorável em comissão que analisou o mérito da proposta; aprovados em turno único, primeiro ou segundo turno; de iniciativa popular, ou que tenham sido enviados por outro poder (como o Executivo), pelo Tribunal de Contas do DF ou pelo Ministério Público.
Encerrado o prazo, os projetos são arquivados de modo automático e permanente. Todas as proposições em tramitação há mais de duas legislaturas – ou seja, que foram protocoladas antes de 2010 – também são arquivadas automaticamente, sem possibilidade de “resgate”.
Decisão
O Conselho Especial do Tribunal de Justiça do DF declarou nesta quarta-feira (4) a inconstitucionalidade de 18 leis distritais e decretos sancionados entre 1996 e 2012, relativos à destinação de áreas públicas e de lotes espalhados pela capital.
No entendimento dos desembargadores, o tema é de competência exclusiva do governador e não pode ser definido por leis propostas por parlamentares. A decisão é irrevogável e os textos vão perder o efeito. A ação de inconstitucionalidade foi proposta pelo Ministério Público do DF em junho de 2014.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Teoria das Janelas Quebradas


Copenhagen, Superkilen
 Copenhagen, Superkilen



É possível que um bom espaço público induza o comportamento social e possa fazer uma cidade mais segura? É possível contribuir com um problema tão complexo e urgente de diferentes perspectivas disciplinares? Algumas pessoas argumentam que arrumando  rapidamente as "janelas quebradas" e repensando as ruas são as melhores políticas preventivas.

Em 1969, Philip Zimbardo, professor na Universidade de Stanford, realizou um experimento no âmbito de suas pesquisas em psicologia social. Ele colocou um carro não licenciado com o capô levantado em uma rua negligenciada no bairro do Bronx, em Nova Iorque, e um carro similar em um bairro rico de Palo Alto, Califórnia. O carro no Bronx foi atacado em menos de dez minutos. Seu aparente estado de abandono permitiu o ataque. 

O carro de Palo Alto não foi tocado por mais de uma semana. Foi então que Zimbardo resolveu quebrar a janela do carro. Quase imediatamente, transeuntes começaram a pegar coisas do carro. Em algumas horas, o carro estava completamente danificado. Em ambos os casos, muitos dos que atacaram os carros não pareciam ser pessoas perigosas. Esse experimento levou os professores de Harvard George Kelling e James Wilson a desenvolver em 1982 a Teoria das Janelas Quebradas: "Se uma janela quebrada é deixada sem reparos, as pessoas concluirão que ninguém liga para ele e que não há ninguém o vigiando. Então mais janelas serão quebradas e a falta de controle se espalhará dos edifícios para as ruas, mandando um sinal que 'vale tudo' e que não há autoridade".


Seguindo isso Kelling foi contratado – muito antes que Rudy Giuliani e a sua Política de Tolerância Zero - pela Acessoria do Metro de Nova York, onde reinavam a insegurança e o crime. Seu primeiro desafio foi convencer o prefeito progressista da cidade, o democrata Ed Koch, que a solução não era reforçar o policiamento e fazer mais prisões, mas sim limpar e sistematicamente prevenir pixações no interior e no exterior dos vagões, garantir que todos pagassem seus bilhetes e erradicar a vadiagem no metro. Apesar das críticas, a transformação do Metro de Nova York começou através de símbolos concretos e detalhes que foram bastante visíveis e que re-estabeleceram ordem e autoridade. Até o célebre designer Massimo Vignelli, autor da sinalização, decidiu inverter as cores dos pôsters para tipografia branca sobre fundo preto para desencorajar as pixações. Hoje é um modelo de espaço público seguro e eficiente, além de um emblema que os nova-iorquinos não estão dispostos a se comprometerem novamente.

A idéia é simples mas poderosa: os maus hábitos se espalham rapidamente, mas os bons hábitos, com força e continuidade, podem desbancar os ruins. Como muitas coisas ao nosso redor estão em um estado crítico graças à nossa indiferença aos primeiros sinais de que algo não está certo? Quantas janelas quebradas nós vemos cada dia? Isso tem relação com a marcação de limites e a extinção dos maus hábitos com estratégias situacionais e preventivas que envolvem não só as autoridades mas também a comunidade na resolução de problemas através de participação ativa. É também o fato de revindicar o papel do Estado na regulação e controle de uma área onde interesses gerais sempre devem ter prioridade, pequenos ou grandes, com ou sem justificação. Em contraste ao que muitos clamam como perspectivas libertárias errôneas, coexistência democrática no domínio público requer a restrição de liberdades individuais para maximizar o bom uso e o disfruto coletivo dos espaços públicos


Algumas das cidades mais bem sucedidas que lidam com essa situação  escaparam de sua deteriorização com planejamento proativo com projetos de alta qualidade,  cultura de higiene urbano e constante manutenção, ou como o ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, costuma dizer: “obcessão com a acupunctura urbana.”
Uma das primeiras a levantar essas questões foi Jane Jacobs, célebre e controversa ativista de direitos civis em Nova York. Inicialmente ridicularizada por tecnocratas do modernismo urbano, hoje é vindicada e citada inclusive pelo Presiente dos EUA, Barak Obama. Em seu livro "Morte e Vida de grandes cidades" (1962) ela recupera as preexistências ricas de cidades multifuncionais, compactas e densas onde a rua, o bairro e a comunidade são vitais para a cultura urbana. "Para manter a segurança da cidade é a tarefa principal das calçadas e ruas". Para ela, uma rua segura é uma que promete uma delimitação clara entre espaços públicos e privados, com pessoas e movimento constante, assim como pequenas quadras que geram muitas esquinas e intersecções, onde os edifícios olham para a calçada para que haja muitos olhos constantemente a vigiando.

O futuro da humanidade e do planeta depende de termos cidades melhores. Sabemos que focando em espaços privados e fugindo para periferias urbanas insustentáveis não é a solução e ainda torna o problema pior. Nossa "qualidade de vida" não pode depender dos guetos guardados por muros, alarmes e exércitos privados. Reduzindo insegurança e medo é muito mais uma prioridade aqui quanto tornar essas áreas mais eficientes, integradas e criativas. Devemos começar a olhar o espaço público como o coração da vida moderna; seu desenho, seu uso, sua gestão e suas novas funções. Devemos repensar as rua, as praças, os parques; as matas e as paisagens urbanas, que nos permite construir uma identidade e experimentar o encontro, o intercâmbio e as diferenças. "Um local somente se torna um lugar quando o apropriamos culturalmente”, disse Heidegger.

Pesquisas recentes demonstram que essas correspondências entre desenho urbano, comunidade e espaços públicos são complementos efetivos para a implementação de uma política de segurança constante. Bill Hiller, professor da Universidade de Londres, em seu Laboratório de Sintaxe Espacial, investiga e mapeia fluxos entre crime, espaço e população. Milhões de dados reunidos e anos de análises permitiram que concluísse, não diferente de Jacobs, que cidades compactas e densas são mais seguras que bairros residenciais de baixa densidade. Zonas mono funcionais com pouca presença de residências - que perdem vitalidade e pedestres em uma certa hora - também não são recomendadas. 

A rua novamente se torna chave com muitas dimensões - não em grandes proporções - um tecido urbano denso entre edifícios que conformam uma rede com boa densidade populacional. As torres com gradis ou muros para a rua e os inatos shoppings centers que se isolam do espaço público, entretanto, não ajudam. O ideal: quadras com comércios no térreo e residências nos pavimentos superiores, conformando ruas e bairros animados e heterogêneos que misturam pessoas e atividades distintas, do educacional, cultural e institucional ao comercial, turístico e  produção sustentável.


Os problemas de segurança devem fazer parte das normas urbanísticas assim como fazer parte dos desafios iniciais de projeto, arquitetura e obras públicas. As atuais ansiedades e impossibilidades nos desafiam a buscar e inovar com outras lógicas, a fim de criar uma cidade com maior participação e menos especulação.


Fonte:Porada, Barbara. "Mais segurança requer melhores espaços públicos" [How to Design Safer Cities] 16 May 2013. ArchDaily Brasil. (Trad. Britto, Fernanda) Acessado 1 Fev 2015.  http://www.archdaily.com.br/br/01-97751/mais-seguranca-requer-melhores-espacos-publicos?ad_medium=widget&ad_name=most-visited-article-show

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

TRF REFORMA DECISÃO JUDICIAL QUE SUSPENDIA A RESOLUÇÃO 51/2013

Decisão restabelece a vigência da Resolução que especifica atribuições privativas de arquitetos e urbanistas


Texto originalmente publicado por http://www.caubr.gov.br
Sessão de julgamento da 8ª. Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª.Região realizada em 28/11/14 decidiu, por maioria de votos, dar provimento a recurso de  agravo de instrumento  interposto pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil  contra  decisão que, em ação proposta pela Associação Brasileira de Engenheiros Civis (ABENC), suspendia a vigência da Resolução 51/2013 do  CAU/BR.  Esta Resolução especifica as atribuições privativas dos arquitetos e urbanistas, entre essas o projeto arquitetônico nas mais diversas modalidades.
A ação anulatória de ato normativo, com pedido de tutela antecipada, foi proposta pela ABENC em meados de 2013, sob os argumento de que a Resolução 51 teria apontado como privativas dos arquitetos e urbanistas  “inúmeros” campos de atuação dos engenheiros civis, entre eles a concepção e execução de projetos de Arquitetura. Citado, o CAU/BR apresentou contestação, após o que foi proferida decisão pelo Juízo da 9ª. Vara Federal do DF suspendendo os efeitos da Resolução até decisão posterior em contrário ou elaboração de Resolução conjunta entre o CAU/BR e o CONFEA (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia).
A decisão da 9ª. Vara levou o CAU/BR  a interpor, ainda em 2013, agravo de instrumento pleiteando sua reforma. No recursos o CAU/BR argumenta que a ação proposta pela ABENC baseia-se na Lei 5.194/1966  e na Resolução 218 do CONFEA, que atribuem ao engenheiro a elaboração de “projetos” de modo genérico, enquanto a Resolução 51 trata especificamente de “projetos arquitetônicos”. Dessa forma, a Resolução do CAU/BR, que seguiu a Lei 12.378/2010, não contradiz norma do CONFEA, inclusive porque a Resolução CONFEA 1.010/2005  já previa que a concepção e execução de Projetos de Arquitetura seria de incumbência do arquiteto.
O CAU/BR também vem argumentando  que, diferentemente do entendimento da ABENC, a suspensão da Resolução No. 51 pode, sim, expor o usuário ao risco da elaboração de projeto arquitetônico por profissional não qualificado,  que não se aprofundou, ao longo do curso de graduação, nessa atividade.
Na sessão do dia 28, o Juiz Federal Mark Ychida Brandão, substituindo o relator Desembargador Marcos Augusto de Souza, votou pela manutenção da decisão que suspendia a vigência da Resolução 51. A Desembargadora Maria do Carmo Cardoso, presidente da 8ª. Turma, contudo, divergiu do relator e votou pelo provimento do agravo de instrumento. O Desembargador Novely Vilanova, que completa a Turma, acompanhou a presidente, resultando no provimento do recurso, o que significa que a Resolução 51 voltará à sua vigência plena.
O CAU/BR vem sendo representado junto ao TRF/1 pelos advogados Carlos Medeiros, chefe de sua Assessoria Jurídica, e Carlos Mario Velloso Filho.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

José Galbinski

Resumo


Na atividade profissional em projetos de Arquitetura pode-se observar que
perdura por parte dos jovens uma fase de indecisão, até mesmo de angústia, na
passagem do estudo do Programa de Necessidades Ambientais para a da concep-
ção: o dito “susto do papel em branco!”. Todos sabem que, em grau moderado,
a adrenalina faz parte do chamado processo criativo. No entanto, por vezes, esta
passagem é um pouco mais complicada: quando os primeiros esboços do projeto
não guardam relação clara com os objetivos a serem atingidos, sendo riscos quase
aleatórios. Como se o grafismo pudesse magicamente fornecer a resposta arquitetônica
e conduzir ao almejado “partido-geral”. Neste artigo, sugere-se uma plataforma
de procedimentos a partir da qual aprendizes, ou mesmo jovens arquitetos
possam trilhar caminhos que conduzam a resultados satisfatórios. Contrariando a
voz corrente, a primeira noção a esclarecer é a de que a concepção arquitetônica, o
projeto, não se inicia no chamado Estudo Preliminar, mas sim muito antes.


Texto Completo:
Estudos iniciais em projetos de arquitetura

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Já abriu o Google hoje?


Homenagem do Google pelo Centenário de Lina Bo Bardi, 5/12/2014





"Sou contra ver a arquitetura somente como um projeto de status. Estou em desacordo com o meu querido amigo Kneese de Mello quando diz que os pedreiros não devem fazer arquitetura. Acho que o povo deve fazer arquitetura."
“A estrutura de uma obra de arquitetura tem que ser projetada por um arquiteto, mesmo se calculada por outros, mas os problemas, que eu chamei de prática científica, devem ser conhecidos e nisso o ensino é terrivelmente falho.”
“Bom, para mim, pessoalmente, como arquiteta, arquitetura é estrutura. Quer dizer, a estrutura de um edifício é elevada ao nível da poesia, como parte da estética. Não há nenhuma diferença. Um arquiteto deve projetar a estrutura como projeta arquitetura, no sentido doméstico da palavra”
“Depois do racionalismo a arquitetura moderna retoma contato com o que de vital, primário, anticristalizado existe no homem, e estes fatores são ligados aos diferentes países, e o verdadeiro arquiteto moderno pode resolver, quando chamado, as realidades de qualquer país, [...] chegar àquela compreensão e formulação dessas realidades que às vezes os próprios arquitetos que ali nasceram não alcançaram.”
“Um anacronismo é também se inspirar na pura técnica como valor expressivo; a técnica não possui valores expressivos em si mesma, mas apenas na eficiência do seu emprego. Quando a única virtude da técnica é o seu aspecto, a sua aparência, cai-se na decoração; (...) a novidade pela novidade, o estranho pelo estranho podem preencher os olhos mas não a inteligência e o coração.”
 “A posição de revolta do arquiteto Niemeyer, ao fazer o contrário daquilo que ele teria podido fazer, enfrentar a especulação imobiliária para servir-se dela como uma arma, contra a própria especulação (a sua celebridade o teria permitido), é uma posição de artista desligado de problemas sociais, uma posição de l’art pour l’art
“O arquiteto que projeta um edifício não convive com o pedreiro, o carpinteiro ou o ferreiro. (...) O desenhista técnico tem complexo de inferioridade pela ausência de competência prática. O operário executor é aviltado pela falta de satisfação ética do próprio trabalho.”
“(...) o arquiteto perdeu a sua figura de arquiteto individual para se transformar num empreendedor. Pode-se trabalhar muito bem montando um pequeno escritório ou escritórios nas diferentes obras, trabalhando coletivamente. A figura do arquiteto trabalhando em cooperativa é perfeita”
“As escadas sempre fascinaram o homem. As grandes escadarias das cidades, as escadas dos tronos, dos templos... são um elemento fascinante, e eu sempre fui, como arquiteta, fascinada pelas ideias de uma escada. Nunca tomei uma escada como um elemento prático, para subir de um nível a outro.”
“Hoje se chegou a um impasse e vocês vivem um período muito “complicado” da história da arquitetura. Não se sabe o que olhar, o que fazer, e pensa-se que tudo é permitido.”
“(...) não somos contra a cultura, ao contrário, estamos ao máximo do lado da cultura, mas queremos esclarecer o significado dessa palavra; para nós a cultura no sentido cristalizado e amorfo da palavra não tem sentido; nós somos por uma intensificação e extensão da cultura, mais precisa, e é condição absolutamente necessária limitar os problemas. Um conhecimento enciclopédico é hoje impossível – o que precisa fazer é iluminar, ter a percepção exata da existência dos problemas, e na limitação e no âmbito duma profissão, deixar abertas as possibilidades de aprofundar os mesmos quando necessário.”
“A liberdade do artista foi sempre “individual”, mas a verdadeira liberdade só pode ser coletiva. Uma liberdade ciente da realidade social, que derrube as fronteiras da estética, campo de concentração da civilização ocidental; uma liberdade ligada às limitações e às grandes conquistas da prática científica (prática científica, não tecnologia decaída em tecnocracia). Ao suicídio romântico, é urgente contrapor a grande tarefa do planejamento ambiental, desde o urbanismo e a arquitetura até o desenho industrial e outras manifestações culturais. Uma reintegração, uma unificação simplificada dos fatores componentes da cultura.”
“A industrialização abrupta, não planificada, estruturalmente importada, leva o país à experiência de um incontrolável acontecimento natural, não de um processo criado pelos homens. Os marcos sinistros de especulação imobiliária, o não planejamento habitacional-popular, a proliferação especulativa do desenho industrial: gadgets, objetos na maioria supérfluos, pesam na situação cultural do país, criando gravíssimos entraves, impossibilitando o desenvolvimento de uma verdadeira cultura autóctone.”
“Uma tomada de consciência coletiva é necessária, qualquer divagação é um delito na hora atual, a “desculturação” está em curso. Se o economista e o sociólogo podem diagnosticar com desprendimento, o artista deve agir, como parte ligada ao povo ativo, além de ligada ao intelectual.”
“Acredito que o Brasil é um país com grande futuro socioeconômico; se falhar, a culpa vai ser de vocês e nossa também, porque ele tem todas as possibilidades de realizar uma grande “modernidade” (...) o Brasil não tem muita vocação artística, isto é, para as artes plásticas, por exemplo, mas tem uma grande e moderníssima vocação que é a prática científica, da qual depende a total formação moderna. É o país mais adiantado do mundo nesse sentido. Não é brincadeira, não. A poesia também está implícita na ciência, que, por sua vez, não é o contrário da poesia. Enquanto aqui muitas das artes plásticas corriqueiras são uma solene porcaria, sem nenhum conteúdo, um pequeno esforço científico tem sempre uma contribuição humana e um conteúdo humano-poético muito importantes. No Brasil, temos a sorte de não ter os horizontes fechados. É um grande país, com um povo que tem uma capacidade dizer “não”, de maneira cafajeste e elegante, a tudo aquilo que não merece ser levado a sério.”
“Estamos na undécima hora para resolver o problema [habitacional], que tem de ser resolvido com a condição de satisfazer um “direito” que não adianta ocultar com as desculpas de que os pobres põem nas casas modernas as galinhas dentro das banheiras e os sapatos nas geladeiras. A “Invasão” tem que ser eliminada por meio de uma séria e honesta planificação e não com as tropas de choque.”
“(...) os que se ocupam das necessidades de uma parcela bem reduzida da sociedade, os autores da serena tomada de anotações dos fatos, os que não fazem escândalo, estão, com certeza, de outro lado.”
“Um dos mais desoladores resultados desses tempos cheios de amarguras e desilusões é a indiferença com a qual governantes, homens políticos, jornalistas, numa palavra, todos aqueles que formam o elemento condutor do país, consideram os problemas técnicos e científicos. Destinam-se verbas enormes a obras públicas, esgotando as finanças nacionais, sem se perguntar se a obra e o fim corresponderão ao sacrifício feito pelo país, e se essas obras merecem realmente esse sacrifício.”
“O problema das casas populares levanta problemas econômicos e sociais de grande envergadura, interfere e atinge interesses econômicos particulares. A impostação econômico-social e científica tem que ser feita com o concurso de técnicos de toda a natureza, desde os sociólogos e arquitetos, até médicos e cientistas. Precisamos levantar o problema.
“Importante é aceitar, fazer uso antropológico, quando necessário, de coisas esteticamente negativas: a arte (como a arquitetura e o desenho industrial) é sempre uma operação política.”
“(...) o design internacional acabou no sentido de que não é mais a salvação do homem, nenhum homem pode se salvar pelo design. Um bonito copo nos salva da sede? Um prato muito bonito ou uma cadeira bonita nos salvam da fome, da miséria, da doença, da deseducação e do desemprego? Essa é uma grande falha.”
"É preciso se libertar das “amarras”, não jogar fora simplesmente o passado e toda a sua história; o que é preciso, é considerar o passado como presente histórico. O passado, visto como presente histórico é ainda vivo, é um presente que ajuda a evitar as várias arapucas. Diante do presente histórico, nossa tarefa é forjar um outro presente, “verdadeiro”, e para isso é necessário não um conhecimento profundo de especialista, mas uma capacidade de entender historicamente o passado, saber distinguir o que irá servir para as novas situações de hoje que se apresentam a vocês, e tudo isto não se aprende somente nos livros”
“Portanto, se a gente acreditar que tudo o que é velho deve ser conservado, a cidade vira um museu de cacarecos. Em um trabalho de restauração arquitetônica é preciso criar e fazer uma seleção rigorosa do passado. O resultado é o que chamamos de presente histórico”
“O que eu poderia dizer é que não existem tupiniquins; existem brasileiros. Claro, eu disse que o Brasil é o meu país de escolha e por isso meu país duas vezes. Eu não nasci aqui, escolhi esse lugar para viver. Quando a gente nasce não escolhe nada, nasce por acaso. Eu escolhi o meu país.”
 Existem “belas almas” e almas menos belas. Em geral as primeiras realizam pouco, as outras realizam mais. É o caso do MASP. Existem sociedades abertas e sociedades: a América é uma sociedade aberta, com prados floridos e o vento que limpa e ajuda.”
“Tenho pelo ar-condicionado o mesmo horror que tenho pelos carpetes. Assim, surgiram os “buracos” pré-históricos das cavernas, sem vidros, sem nada. Os “buracos” permitem uma ventilação cruzada permanente.” [Referindo-se às aberturas nas quadras do SESC Pompeia]
“Quando o músico e poeta americano John Cage veio a São Paulo, de passagem pela avenida Paulista mandou parar o carro na frente do  MASP, desceu, e andando de um lado para outro do belvedere, os braços levantados, gritou: “É a arquitetura da liberdade!”. Acostumada aos elogios pelo “Maior vão livre do mundo, com carga permanente, coberto em plano”, achei que o julgamento do grande artista talvez estivesse conseguido comunicar aquilo que queria dizer quando projetei o MASP. O museu era um “nada”, uma procura da liberdade, a eliminação de obstáculos, a capacidade de ser livre perante as coisas” 
Victor Delaqua. "Citações de Lina Bo Bardi" 05 Dec 2014. ArchDaily Brasil. Acessado 5 Dez 2014. <http://www.archdaily.com.br/br/758509/citacoes-de-lina-bo-bardi>